
About the author : Flaviano da Silva
Psicólogo Flaviano Jaime da Silva CRP 56349 Formaçôes: Psicólogo Formado pela Universidade Veiga de Almeida RJ Pós Graduado em Terapia Cognitivo Comportamental Contato email: flavianospsi@gmail.com Telefone 021 96626 7379
O que é terapia de casal?
A terapia de casal é um atendimento psicológico voltado para o relacionamento. O foco não é descobrir quem está certo e quem está errado, nem escolher um culpado. O objetivo é compreender o padrão que se formou entre os parceiros: como eles conversam, como brigam, como se afastam, como tentam se aproximar, como lidam com diferenças, como reagem à dor um do outro e como cada um contribui, mesmo sem perceber, para manter o ciclo de sofrimento.
Em um atendimento individual, a atenção costuma estar concentrada na história, nas emoções e nos comportamentos de uma pessoa. Na terapia de casal, a atenção se amplia para a relação. O terapeuta observa o que acontece entre os dois. Às vezes, um parceiro cobra porque se sente sozinho. O outro se cala porque se sente atacado. O silêncio aumenta a solidão do primeiro. A cobrança aumenta a defesa do segundo. Nenhum dos dois queria piorar tudo, mas o ciclo cresce.
Uma das contribuições do manual clínico organizado por David H. Barlow é mostrar que os problemas do casal não são apenas “brigas normais”. Eles podem ter consequências emocionais sérias, piorar ansiedade, depressão, uso de álcool, estresse e sofrimento familiar. Por isso, cuidar do relacionamento também pode ser uma forma de cuidar da saúde mental de cada pessoa e do ambiente em que a família vive.
A terapia de casal pode trabalhar comunicação, resolução de problemas, aceitação de diferenças, mudança de comportamentos, reconstrução de confiança, divisão de responsabilidades, intimidade, sexualidade, planos de vida, conflitos com famílias de origem, parentalidade e decisões sobre futuro. Cada casal chega com uma história, e o trabalho precisa respeitar essa história.
Quando procurar ajuda?
Um bom momento para procurar ajuda é quando as conversas importantes terminam sempre em briga, choro, silêncio ou afastamento. Se o casal evita falar sobre assuntos difíceis porque sabe que tudo vai piorar, isso é sinal de que o padrão de comunicação precisa de cuidado.
Também vale buscar terapia quando os mesmos problemas se repetem por meses ou anos. Dinheiro, ciúmes, tarefas domésticas, filhos, sexo, sogros, uso de celular, trabalho, amizades, religião, planos de futuro ou falta de tempo podem virar temas circulares. O casal conversa, briga, promete mudar, melhora por alguns dias e depois volta ao mesmo ponto. Quando isso acontece, talvez o problema não esteja apenas no tema, mas no modo como o casal tenta resolvê-lo.
Outro sinal é o distanciamento emocional. Às vezes, o casal nem briga muito. Apenas deixa de conversar de verdade. Cada um vive sua rotina, divide a casa, paga contas, cuida dos filhos, mas já não compartilha medos, sonhos, carinho ou presença. A relação continua funcionando por fora, mas vai perdendo vida por dentro.
A terapia também pode ser importante depois de uma traição, mentira, quebra de confiança, crise financeira, nascimento de filho, perda familiar, mudança de cidade, adoecimento, desemprego ou qualquer evento que tenha abalado a relação. Algumas situações não se resolvem apenas com o tempo. O tempo pode ajudar quando existe cuidado; quando não existe, pode apenas acumular ressentimento.
O casal não precisa estar “quase separando”
Muitos casais esperam chegar ao limite porque acreditam que terapia é sinal de fracasso. Isso faz com que procurem ajuda quando já há muito desgaste, pouca paciência e anos de mágoas acumuladas. Ainda pode haver trabalho possível nesse momento, mas costuma ser mais difícil.
Procurar ajuda mais cedo pode evitar que pequenas rachaduras se tornem paredes. Se o casal percebe que está discutindo mais, se sentindo menos próximo ou evitando conversas importantes, já pode ser hora de cuidar. Não é necessário esperar traição, ameaça de separação ou sofrimento extremo.
Também não é preciso que os dois tenham certeza de que querem continuar para começar. Às vezes, um quer tentar e o outro está em dúvida. A terapia pode ajudar justamente a organizar essa dúvida. O espaço terapêutico pode permitir que cada um diga o que sente sem transformar a conversa em batalha.
O que costuma ser necessário é alguma disposição mínima para participar de forma honesta. Terapia de casal não funciona bem quando um dos parceiros só vai para provar que o outro é o problema, humilhar, controlar ou manipular. O trabalho exige escuta, responsabilidade e alguma abertura para ver o próprio papel no ciclo.
Brigas repetidas: o problema não é só o assunto
Muitos casais acreditam que brigam por causa de um tema específico. “Brigamos por dinheiro.” “Brigamos por causa da casa.” “Brigamos por ciúme.” “Brigamos por causa da família dele.” “Brigamos por causa do sexo.” Esses temas importam, mas muitas vezes o que mais machuca é o padrão da briga.
Um parceiro começa reclamando de algo. O outro escuta como ataque. Responde se defendendo. O primeiro sente que não foi levado a sério e aumenta o tom. O segundo se fecha ou contra-ataca. Em poucos minutos, o assunto inicial desaparece e a conversa vira um julgamento da relação inteira: “você nunca me escuta”, “você sempre faz isso”, “você é igual à sua mãe”, “eu não aguento mais”, “então separa logo”.
Depois da briga, os dois ficam machucados. Talvez ninguém lembre exatamente como começou. Um sente que precisou gritar para ser ouvido. O outro sente que precisou se calar para se proteger. Os dois confirmam suas piores crenças: “não sou importante”, “não posso falar nada”, “sempre vou ser culpado”, “não adianta tentar”.
A terapia ajuda a desacelerar esse padrão. Em vez de olhar apenas para o conteúdo da discussão, observa a dança do conflito: quem persegue, quem se afasta, quem critica, quem se defende, quem ironiza, quem cala, quem explode, quem pede aproximação de forma agressiva, quem se protege com distância. Quando o casal enxerga o ciclo, pode começar a mudar a forma de conversar.
Comunicação não é apenas “falar mais”
Muitas pessoas dizem: “nosso problema é falta de comunicação”. Às vezes é verdade. Mas comunicação não significa apenas falar mais. Alguns casais falam muito e se entendem pouco. Outros falam pouco porque toda tentativa vira conflito. O ponto não é quantidade de palavras, mas qualidade da escuta e da expressão.
Uma comunicação mais saudável envolve dizer o que sente sem destruir o outro. Em vez de “você não presta atenção em mim”, pode ser “eu me sinto sozinho quando tento conversar e você continua no celular”. Em vez de “você é irresponsável”, pode ser “eu fico sobrecarregada quando as tarefas ficam todas comigo”. A diferença parece pequena, mas muda o tom da conversa.
Escutar também é uma habilidade. Muita gente não escuta para entender; escuta para responder, se defender ou encontrar falhas. Em terapia, o casal pode aprender a fazer pausas, resumir o que entendeu, perguntar antes de concluir e reconhecer a emoção do outro mesmo quando discorda do ponto de vista.
Isso não significa transformar toda conversa em uma técnica artificial. O objetivo é criar segurança suficiente para que os dois possam falar de temas difíceis sem entrar automaticamente em ataque e defesa. Relações íntimas precisam de honestidade, mas honestidade sem cuidado pode virar agressão.
O ciclo crítica, defesa e afastamento
Um dos padrões mais comuns em casais é o ciclo de crítica e defesa. Um parceiro tenta falar de uma dor, mas fala em forma de acusação. O outro, sentindo-se atacado, se defende. A defesa pode vir como justificativa, contra-ataque, ironia ou silêncio. Quem criticou sente que o outro não se importa. Então critica mais. Quem se defendeu sente que nada do que disser será aceito. Então se fecha mais.
Com o tempo, o casal deixa de discutir apenas situações e começa a atacar identidades. “Você é egoísta.” “Você é fria.” “Você é controlador.” “Você é infantil.” “Você é igual a todo mundo que me machucou.” Essas frases deixam marcas. Mesmo quando depois há pedido de desculpas, a memória emocional fica.
A terapia ajuda o casal a traduzir críticas em necessidades. Por trás de “você nunca me dá atenção”, pode haver “eu sinto falta de você”. Por trás de “você só reclama”, pode haver “eu tenho medo de nunca ser suficiente”. Por trás de “você não liga para a casa”, pode haver “eu me sinto sozinho carregando tudo”. Quando a necessidade aparece, a conversa pode mudar.
Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito. Há atitudes que precisam mudar. Mas a mudança costuma ser mais possível quando a conversa sai do ataque global e entra em pedidos concretos, limites claros e responsabilidade compartilhada.
Aceitação não é se conformar com tudo
Uma ideia importante na terapia comportamental integrativa de casal é a combinação entre aceitação e mudança. À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Se o casal quer mudar, por que falar em aceitação? Porque muitas brigas surgem quando um tenta transformar o outro pela força, pela crítica ou pela humilhação.
Aceitação não significa suportar desrespeito, violência, traições repetidas ou abandono emocional sem limites. Também não significa desistir de necessidades importantes. Aceitação significa reconhecer que o parceiro é uma pessoa real, com história, vulnerabilidades, limitações, modos aprendidos de se proteger e diferenças que talvez não desapareçam completamente.
Quando o casal só tenta mudar o outro, a relação vira disputa. Um pressiona, o outro resiste. Um cobra, o outro se defende. A aceitação ajuda a diminuir a guerra. A partir de um clima menos ameaçador, algumas mudanças ficam mais possíveis.
Por exemplo, uma pessoa pode aceitar que o parceiro é mais reservado e, ao mesmo tempo, pedir momentos de conversa. Pode aceitar que o outro tem dificuldade com organização e, ao mesmo tempo, combinar tarefas claras. Pode aceitar que existem diferenças de desejo sexual e, ao mesmo tempo, buscar cuidado para a intimidade. Aceitar a realidade do outro não impede pedidos; apenas reduz a tentativa de moldar o parceiro pela dor.
Quando apenas um quer terapia
É comum que um parceiro queira terapia e o outro resista. Quem resiste pode ter medo de ser culpado, exposto, atacado ou pressionado a mudar. Pode acreditar que terapia “não funciona”, que problemas do casal devem ser resolvidos em casa ou que falar com um estranho é vergonhoso. Também pode já estar muito desanimado e pensar que não adianta.
Nesses casos, insistir com acusações pode piorar. Em vez de dizer “você precisa de terapia porque o problema é você”, é melhor falar da relação: “eu sinto que estamos presos em conversas que machucam nós dois. Eu queria tentar um espaço com alguém preparado para nos ajudar a conversar”.
Se mesmo assim o outro não aceita, a pessoa pode buscar atendimento individual. A terapia individual não substitui a terapia de casal, mas pode ajudar a organizar sentimentos, entender limites, mudar a própria forma de reagir e decidir próximos passos. Às vezes, quando um parceiro muda sua parte no ciclo, a relação também se movimenta.
Mas também é importante reconhecer limites. Um relacionamento não pode ser cuidado por uma pessoa só indefinidamente. Se apenas um tenta conversar, reparar, escutar e mudar, enquanto o outro se recusa a qualquer responsabilidade, isso precisa ser visto com honestidade.
Terapia de casal depois de traição
A traição costuma abalar a base da relação. Não é apenas o ato em si, mas o que ele representa: mentira, quebra de confiança, comparação, humilhação, medo de ter vivido uma história falsa, perda de segurança e dúvidas sobre o futuro. Quem foi traído pode ficar em estado de alerta, perguntar detalhes, querer checar, oscilar entre raiva e saudade, desejar proximidade e rejeitar toque ao mesmo tempo.
Quem traiu pode sentir culpa, vergonha, defensividade, impaciência ou vontade de “virar a página” rapidamente. Mas a confiança não volta por decreto. Não basta dizer “já pedi desculpa”. Reconstruir confiança exige consistência, transparência, escuta da dor e disposição para entender o que aconteceu sem usar explicações como desculpas.
A terapia de casal pode ajudar quando os dois desejam avaliar se há caminho de reconstrução. O espaço terapêutico permite falar sobre a ferida sem transformar toda conversa em interrogatório ou ataque. Também ajuda a diferenciar arrependimento real de tentativa de apagar consequências.
Nem toda relação deve continuar depois de traição. Às vezes, a terapia ajuda a reconstruir. Em outras, ajuda a encerrar de forma menos destrutiva. O objetivo não é empurrar o casal para permanecer junto, mas permitir uma decisão mais consciente e segura.
Quando há filhos envolvidos
Conflitos de casal não afetam apenas os dois parceiros. Quando há filhos, o clima da relação pode atravessar a casa inteira. Crianças e adolescentes percebem tensão, silêncio, ironias, gritos, ameaças de separação e falta de afeto. Mesmo quando os adultos tentam esconder, o ambiente emocional costuma ser sentido.
Isso não significa que pais nunca possam discordar na frente dos filhos. O problema é a repetição de conflitos intensos, humilhações, violência, instabilidade e ausência de reparação. Filhos podem começar a se sentir culpados, ansiosos, irritados, tristes ou responsáveis por acalmar os adultos.
A terapia de casal pode ajudar os pais a separar conjugalidade de parentalidade. Mesmo quando o casal está em crise, os filhos precisam de cuidado, previsibilidade e proteção emocional. Isso inclui evitar usar filhos como mensageiros, aliados, espiões ou armas em brigas.
Quando a separação é considerada, a terapia também pode ajudar o casal a conversar de modo mais maduro sobre guarda, rotina, comunicação e limites. O fim de uma relação amorosa não precisa destruir a função parental. Mas isso exige cuidado e, muitas vezes, ajuda profissional.
Quando a terapia de casal não é indicada
Nem toda crise de relacionamento deve ser tratada com terapia de casal. Quando há violência, ameaça, coerção, controle, medo, agressão física, abuso sexual, perseguição, intimidação, destruição de objetos, chantagem, isolamento forçado, controle financeiro abusivo ou risco de retaliação, a prioridade é segurança.
O manual ressalta que avaliar violência entre parceiros é parte fundamental da admissão de qualquer casal. Isso é importante porque a terapia de casal exige que ambos possam falar com alguma liberdade e segurança. Em relações violentas, a sessão pode expor a vítima a mais risco depois, especialmente se o agressor usa o que foi dito para punir, controlar ou ameaçar.
Nesses casos, o foco deve ser proteção, rede de apoio, orientação especializada e responsabilização de quem pratica violência. A terapia individual, serviços de proteção, orientação jurídica e apoio social podem ser mais adequados. A segurança vem antes de qualquer tentativa de “melhorar a comunicação”.
É importante dizer com clareza: violência não é problema de comunicação. Violência é risco. Nenhuma pessoa deve ser pressionada a fazer terapia de casal com alguém de quem tem medo.
Terapia de casal online funciona?
O atendimento online pode ser uma alternativa importante para casais que têm dificuldade de deslocamento, moram em cidades diferentes, têm horários complicados, filhos pequenos, vergonha de procurar atendimento presencial ou precisam de apoio em um momento de crise. A tecnologia não substitui a qualidade clínica, mas pode ampliar o acesso.
O manual menciona programas online baseados em princípios de terapia comportamental integrativa de casal, com pesquisas mostrando melhora em satisfação no relacionamento, comunicação, apoio emocional, confiança e também sintomas individuais de ansiedade e depressão. Isso reforça que o cuidado do relacionamento pode ter impacto para além das brigas do casal.
Em uma terapia de casal 24 horas online, o casal pode buscar acolhimento em momentos de crise, organizar uma conversa difícil e receber orientação sobre próximos passos. Esse formato pode ser especialmente útil quando os dois estão muito ativados emocionalmente e não conseguem esperar dias para conversar com ajuda.
Mesmo online, alguns cuidados são importantes. Cada parceiro precisa estar em local privado e seguro. Não deve haver gravação sem consentimento. Se houver violência, medo ou risco de retaliação, o profissional precisa avaliar se o formato de casal é adequado. Em situações de risco físico, serviços presenciais e proteção local podem ser necessários.
O que esperar das primeiras sessões?
Nas primeiras sessões, o terapeuta costuma entender a história do casal. Como se conheceram, o que aproximou os dois, quando os problemas começaram, quais são os principais conflitos, como cada um vê a relação, o que já tentaram, o que piora as brigas e o que ainda mantém o casal junto.
Também pode haver momentos individuais com cada parceiro, dependendo da abordagem. Isso ajuda a compreender informações que talvez não apareçam em conjunto, como medo, ambivalência, histórico de violência, traições, uso de substâncias, sofrimento psicológico, pensamentos de separação ou necessidades não ditas.
Uma boa avaliação não deve perguntar apenas “qual é o problema?”. Precisa avaliar satisfação, compromisso, áreas problemáticas, segurança, violência, saúde mental, uso de álcool ou substâncias, histórico familiar e impacto nos filhos. Quanto mais completo o entendimento, mais adequado pode ser o cuidado.
Depois dessa avaliação, o terapeuta pode devolver ao casal uma compreensão do padrão principal. Em vez de listar defeitos de cada um, descreve o ciclo: “quando um se sente sozinho, cobra; quando o outro se sente criticado, se afasta; o afastamento aumenta a cobrança; a cobrança aumenta o afastamento”. Essa formulação pode ajudar o casal a enxergar o problema como algo que acontece entre eles, não apenas dentro de um culpado.
O que a terapia de casal não faz
A terapia de casal não é tribunal. O terapeuta não está ali para declarar um vencedor. Também não é um lugar para um parceiro levar o outro “para consertar”. Quando o atendimento vira acusação unilateral, dificilmente há mudança real.
A terapia também não promete salvar toda relação. Algumas relações podem se reconstruir. Outras talvez precisem terminar. O papel do cuidado psicológico não é manter o casal unido a qualquer custo, mas ajudar os parceiros a entenderem o que vivem, reduzirem danos, tomarem decisões mais conscientes e, se decidirem continuar, construírem uma relação mais saudável.
Também não é mágica. Uma sessão não desfaz anos de mágoas. A terapia exige prática fora do atendimento. O casal precisa testar novas formas de conversar, cumprir acordos, observar impulsos, fazer reparações, reduzir críticas e construir momentos de aproximação.
Por fim, terapia não substitui medidas de segurança. Quando há violência, risco, abuso ou ameaça, o caminho não é insistir em diálogo a qualquer preço. É proteger a pessoa em risco e buscar ajuda adequada.
Como saber se ainda vale tentar?
Essa é uma pergunta difícil. Alguns sinais indicam que ainda pode haver espaço para trabalho: os dois aceitam alguma responsabilidade, existe respeito mínimo, há disposição para escutar, ainda há desejo de entender o outro, os dois conseguem reconhecer danos e existe compromisso com segurança.
Outros sinais indicam maior gravidade: desprezo constante, humilhação, violência, mentiras repetidas sem arrependimento, controle, ameaças, traições contínuas, ausência total de responsabilidade, uso da terapia para manipular ou medo de falar. Nesses casos, o cuidado precisa ser muito cauteloso.
Às vezes, a pergunta não é “eu ainda amo?”, porque amor pode existir junto com dor. Perguntas mais úteis são: “existe segurança?”, “existe respeito?”, “existe disposição real de mudança?”, “eu posso ser eu mesmo nesta relação?”, “meu corpo vive em alerta?”, “estamos cuidando ou apenas repetindo sofrimento?”.
A terapia pode ajudar a responder essas perguntas com menos impulsividade. Decidir continuar ou separar no meio de uma briga pode trazer arrependimento. Decidir depois de olhar com honestidade para a relação costuma ser mais saudável.
Quando procurar apoio individual junto com a terapia de casal
Algumas situações pedem, além da terapia de casal, apoio individual. Isso pode acontecer quando um dos parceiros vive depressão, ansiedade intensa, trauma, uso de substâncias, pensamentos de morte, transtorno bipolar, crises de pânico ou emoções muito desreguladas. O sofrimento individual pode entrar no relacionamento e aumentar conflitos.
Por exemplo, uma pessoa com ansiedade pode interpretar distância como abandono. Uma pessoa deprimida pode se afastar e parecer desinteressada. Alguém com trauma pode reagir a certos tons de voz como ameaça. Uma pessoa em uso problemático de álcool pode gerar insegurança e brigas. O casal precisa cuidar do vínculo, mas cada pessoa também pode precisar cuidar de si.
Nesses casos, procurar um psicólogo 24 horas online pode ajudar em momentos de crise individual, enquanto a terapia de casal cuida da dinâmica entre os parceiros. Os dois tipos de apoio podem se complementar quando bem coordenados.
É importante que o casal não use diagnósticos como arma. Dizer “você é assim porque é ansioso” ou “o problema é sua depressão” machuca e simplifica demais. O cuidado individual ajuda a pessoa a assumir sua parte sem virar culpada por tudo.
Como se preparar para a primeira conversa
Antes de procurar terapia, pode ajudar que cada parceiro pense em algumas perguntas. O que mais dói na relação hoje? O que eu sinto falta? O que eu faço que pode piorar nosso ciclo? O que eu gostaria que mudasse de forma concreta? O que ainda valorizo no outro? O que eu tenho medo de dizer?
Também é útil evitar chegar com uma lista de acusações apenas. Levar exemplos concretos ajuda mais do que rótulos. Em vez de “você nunca se importa”, descreva: “quando eu falei sobre meu dia e você continuou vendo o celular, eu me senti sozinho”. Em vez de “você é controladora”, descreva: “quando recebo muitas mensagens perguntando onde estou, eu me sinto sem espaço”.
Outra preparação importante é combinar um objetivo inicial. O casal quer parar de brigar de forma destrutiva? Quer decidir se continua? Quer reconstruir confiança? Quer melhorar comunicação? Quer lidar com uma traição? Quer conversar sobre sexo? Quer aprender a cuidar dos filhos sem guerra? O objetivo pode mudar, mas começar com alguma direção ajuda.
Mesmo que a conversa seja difícil, o simples fato de buscar ajuda já pode ser um movimento de cuidado. Relações não melhoram apenas por desejo; melhoram quando desejo vira prática.
Cuidar da relação é cuidar da saúde emocional
Um relacionamento íntimo pode ser fonte de apoio, segurança, alegria e crescimento. Mas também pode ser fonte de estresse profundo quando está marcado por brigas, silêncio, medo, desprezo ou solidão. A qualidade da relação afeta sono, humor, ansiedade, autoestima, produtividade, vida sexual, parentalidade e esperança.
Por isso, procurar terapia de casal não é exagero. É reconhecer que o vínculo importa. É dizer que a forma como duas pessoas se tratam todos os dias tem impacto real na vida de ambas.
O casal não precisa estar perfeito para buscar ajuda. Na verdade, terapia existe justamente porque relações reais são complexas. O que faz diferença é a disposição para olhar, escutar, assumir responsabilidades e construir algo diferente.
Às vezes, a terapia ajuda o casal a se reencontrar. Às vezes, ajuda a se separar com menos destruição. Às vezes, ajuda a proteger filhos. Às vezes, ajuda a interromper ciclos de mágoa. Em todos os casos, o objetivo é aumentar clareza, segurança e cuidado.
Quando o amor precisa de ajuda
Amar alguém não garante saber conviver. Duas pessoas podem se amar e ainda assim se machucar muito. Podem querer proximidade e, ao mesmo tempo, agir de formas que afastam. Podem desejar paz e repetir brigas. Podem querer ser ouvidas e falar de um jeito que impede a escuta.
A terapia de casal ajuda a transformar amor em prática. Prática de escuta, limite, pedido, reparação, presença, negociação, cuidado e responsabilidade. Não se trata de encontrar uma relação sem conflitos. Trata-se de construir uma relação em que conflitos não destruam a dignidade dos dois.
Se o relacionamento virou um lugar de dor constante, não espere apenas o tempo resolver. Tempo sem cuidado pode endurecer mágoas. Tempo com ajuda pode abrir compreensão.
Procurar apoio pode ser o começo de uma conversa mais honesta: não para provar quem ama mais, quem errou mais ou quem sofreu mais, mas para descobrir se ainda é possível construir um caminho onde os dois possam respirar melhor.
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