
About the author : Flaviano da Silva
Psicólogo Flaviano Jaime da Silva CRP 56349 Formaçôes: Psicólogo Formado pela Universidade Veiga de Almeida RJ Pós Graduado em Terapia Cognitivo Comportamental Contato email: flavianospsi@gmail.com Telefone 021 96626 7379
O distanciamento emocional pode ser mais difícil de perceber do que uma briga. Quando há gritos, acusações e discussões, o problema fica visível. Quando há afastamento, muitas vezes o casal se acostuma. Um para de pedir. O outro para de procurar. O carinho diminui. O desejo muda. As conversas ficam práticas. As tentativas de aproximação são adiadas. Aos poucos, os dois passam a viver como colegas de casa, parceiros de tarefas ou administradores de uma rotina comum.
Esse afastamento não significa necessariamente falta de amor. Muitas pessoas ainda amam, mas estão cansadas, magoadas, defensivas, sobrecarregadas ou sem saber como voltar. Às vezes, a distância nasce de brigas antigas. Às vezes, de excesso de trabalho. Às vezes, de filhos pequenos, depressão, ansiedade, traição, problemas sexuais, ressentimentos ou anos de pequenas frustrações não faladas. O amor pode continuar existindo, mas sem cuidado ele perde linguagem.
O que é distanciamento emocional?
Distanciamento emocional acontece quando o casal perde intimidade, presença e abertura afetiva. As pessoas podem continuar próximas fisicamente, mas deixam de se sentir realmente acompanhadas. A sensação é de solidão a dois. Um parceiro pode estar ao lado do outro no sofá, mas emocionalmente inacessível. Pode responder, mas não se envolver. Pode ouvir, mas não acolher. Pode cumprir obrigações, mas sem demonstrar interesse vivo pela experiência do outro.
Esse afastamento pode aparecer como falta de conversa profunda, redução de carinho, pouca curiosidade sobre a vida interna do parceiro, diminuição de contato físico, vida sexual apagada, excesso de silêncio, sensação de indiferença, irritação constante ou preferência por passar tempo sozinho, no celular, no trabalho ou com outras pessoas.
Também pode aparecer de forma mais sutil. O casal até conversa, mas só sobre problemas. Um não conta mais novidades com entusiasmo. O outro não compartilha medos. Ninguém pergunta “como você está de verdade?”. Datas passam sem significado. Pequenos gestos desaparecem. A relação fica sem calor.
Uma das dores mais comuns nesse cenário é pensar: “eu tenho alguém, mas me sinto sozinho”. Essa solidão é muito profunda porque acontece dentro de um vínculo que deveria oferecer companhia. A pessoa não está sozinha no sentido prático, mas está sem conexão emocional.
Como o afastamento começa?
Raramente o distanciamento emocional acontece de uma vez. Ele costuma crescer em pequenos movimentos. Um dia, uma conversa difícil é evitada. Em outro, um pedido de carinho não é feito por medo de rejeição. Depois, uma mágoa fica guardada. Mais tarde, o casal se ocupa demais. O celular entra no lugar da conversa. O trabalho entra no lugar da presença. O cansaço entra no lugar do toque. Quando percebem, os dois já não sabem como se aproximar sem estranheza.
No começo da relação, muitos gestos são naturalmente reforçadores. Uma mensagem, um abraço, um elogio, uma conversa longa, um encontro simples, um toque no braço, uma risada. Com o passar dos anos, alguns desses gestos podem ser tomados como garantidos. Aquilo que antes era notado passa a ser invisível. O manual descreve esse fenômeno como desgaste dos reforços: comportamentos que antes traziam carinho e prazer podem perder força com a repetição e, em alguns casais, até se tornar fonte de incômodo.
Isso não quer dizer que todo amor acaba com o tempo. Quer dizer que a conexão precisa ser renovada. O que mantinha a proximidade no início talvez não seja suficiente anos depois, com filhos, trabalho, contas, preocupações, corpo cansado, perdas e mudanças pessoais. O casal precisa aprender novas formas de se encontrar.
Quando essa renovação não acontece, a relação pode ficar automática. Os parceiros deixam de escolher presença e passam a apenas repetir rotina. O vínculo não morre de repente; ele vai ficando sem alimento.
Distância depois de muitas brigas
Em muitos casais, o afastamento é uma defesa contra a dor. Depois de tantas discussões, críticas, cobranças ou decepções, a pessoa aprende que se aproximar machuca. Então se fecha. Fala menos, pede menos, toca menos, espera menos. Por fora parece frieza. Por dentro pode haver autoproteção.
Um parceiro pode pensar: “toda vez que tento conversar, vira briga”. O outro pode pensar: “toda vez que falo o que sinto, sou ignorado”. Com o tempo, os dois concluem que é melhor não tentar. A paz que surge não é paz verdadeira; é silêncio armado. As brigas diminuem, mas a intimidade também.
Esse tipo de distância pode ser confundido com melhora. O casal diz: “pelo menos não estamos brigando tanto”. Mas, se a redução das brigas veio porque ninguém mais se importa em falar, há um problema. A ausência de conflito não significa presença de conexão. Às vezes, significa desistência emocional.
A terapia ajuda a diferenciar calma de afastamento. Uma calma saudável permite conversa, carinho e descanso. Um afastamento defensivo evita dor, mas também evita amor. A pessoa sofre menos conflitos diretos, mas também se sente cada vez mais sozinha.
O ciclo de proximidade e independência
Um tema muito comum nos casais é a diferença entre necessidade de proximidade e necessidade de espaço. Uma pessoa quer conversar mais, estar junto, receber mensagens, compartilhar sentimentos e sentir presença. A outra precisa de silêncio, autonomia, tempo sozinha, menos cobrança e menos intensidade. Nenhuma dessas necessidades é errada. O problema surge quando cada uma interpreta a necessidade da outra como rejeição ou controle.
Quem busca proximidade pode sentir o espaço do parceiro como abandono. Pensa: “ele não me ama”, “ela não sente minha falta”, “não sou prioridade”. Então tenta se aproximar com mais força, às vezes cobrando, perguntando, insistindo ou criticando.
Quem busca espaço pode sentir essa aproximação como pressão. Pensa: “nunca é suficiente”, “não posso respirar”, “tudo vira cobrança”. Então se afasta mais, responde menos, evita conversas e se fecha.
O resultado é doloroso. Quanto mais um busca, mais o outro foge. Quanto mais o outro foge, mais o primeiro busca. O casal fica preso em uma dança em que ambos tentam se proteger, mas ambos acabam confirmando os medos do outro. Quem teme abandono vê distância. Quem teme invasão vê cobrança.
Quando a rotina engole o casal
Às vezes, o afastamento não nasce de um grande conflito, mas de uma rotina que engole tudo. Trabalho, filhos, trânsito, contas, familiares, tarefas domésticas, estudos, problemas de saúde e preocupações vão ocupando espaço. O casal deixa de namorar dentro da própria relação. Fala sobre logística, mas não sobre vida.
Isso acontece muito depois da chegada dos filhos. Os parceiros viram equipe de cuidado. Um troca fralda, o outro prepara comida. Um leva à escola, o outro paga contas. Um organiza banho, o outro responde mensagens. O casal funciona, mas o vínculo amoroso fica para depois. O problema é que esse “depois” pode demorar anos.
Também acontece quando o trabalho ocupa o centro da vida. A pessoa chega exausta, sem energia para conversar. O parceiro interpreta como desinteresse. A pessoa cansada se sente cobrada. O parceiro se sente sozinho. A distância aumenta.
Rotina não destrói relação por si só. O problema é quando a rotina não deixa nenhum espaço protegido para conexão. Relações precisam de pequenas pausas de encontro. Não necessariamente grandes viagens ou gestos caros, mas momentos em que os dois se olham como casal, não apenas como administradores da vida.
O celular como refúgio
O celular muitas vezes se torna um terceiro elemento na distância emocional. Depois de um dia cansativo, é fácil se refugiar na tela. Vídeos, redes sociais, mensagens, notícias e trabalho parecem oferecer descanso rápido. Mas, quando isso vira padrão, o parceiro pode sentir que compete com uma tela o tempo todo.
O problema não é usar celular. O problema é quando ele ocupa todos os intervalos em que poderia haver conexão. O casal deita junto, mas cada um olha para um aparelho. Janta junto, mas responde mensagens. Senta no sofá, mas não conversa. A presença física continua; a atenção desaparece.
Para quem se sente sozinho, o celular do outro pode virar símbolo de rejeição. “Ele prefere qualquer coisa a mim.” “Ela dá atenção para todo mundo, menos para mim.” Para quem usa o celular, a crítica pode soar como controle. “Não posso nem descansar.” “Tudo vira problema.”
Uma saída possível é criar momentos sem tela, pequenos e realistas. Dez minutos de conversa ao chegar. Uma refeição sem celular. Um horário antes de dormir. O objetivo não é proibir, mas devolver atenção ao vínculo. Presença é uma forma de carinho.
Distanciamento e vida sexual
A vida sexual costuma sentir os efeitos do afastamento emocional. Quando o casal está distante, o desejo pode diminuir, o toque pode ficar estranho e a intimidade física pode virar obrigação, cobrança ou tema evitado. Em alguns casos, a distância emocional começa na falta de sexo. Em outros, a falta de sexo é consequência de mágoas, cansaço, depressão, ansiedade, conflitos ou sensação de não ser visto.
Para algumas pessoas, sexo é uma forma de se sentir amado. Para outras, é difícil desejar quando não há conversa, cuidado ou segurança emocional. Essa diferença pode gerar muito sofrimento. Um se sente rejeitado. O outro se sente pressionado. Quanto mais pressão, menos desejo. Quanto menos desejo, mais rejeição o outro sente.
Conversar sobre sexo exige delicadeza. Frases como “você nunca quer” ou “você só pensa nisso” aumentam defesa. Pode ser mais útil falar da vulnerabilidade: “eu sinto falta de me sentir desejado” ou “eu preciso de mais carinho e menos pressão para conseguir me aproximar”.
Se o tema virou fonte de dor constante, a terapia pode ajudar o casal a falar sem humilhação. A vida sexual não deve ser tratada como prova simples de amor, nem como obrigação. Ela é parte de uma relação mais ampla, feita de corpo, emoção, confiança, rotina e comunicação.
Quando a pessoa se sente invisível
Uma das experiências mais dolorosas do distanciamento emocional é sentir-se invisível. A pessoa percebe que o parceiro já não pergunta, não nota, não se interessa, não elogia, não toca, não procura. Ela começa a pensar: “se eu sumisse emocionalmente, será que ele perceberia?”.
Sentir-se invisível pode gerar tristeza, raiva ou desistência. Algumas pessoas cobram mais. Outras se fecham. Algumas buscam atenção fora da relação. Outras mergulham no trabalho, nos filhos ou nas redes sociais. Outras entram em depressão ou ansiedade.
Do outro lado, o parceiro pode não entender a gravidade. Pode pensar: “mas eu estou aqui”, “eu trabalho pela família”, “eu não traio”, “eu faço minha parte”. Isso mostra uma diferença importante: estar fisicamente presente não é o mesmo que estar emocionalmente disponível.
Disponibilidade emocional aparece em gestos simples: perguntar com interesse, escutar sem pressa, notar mudanças, lembrar algo importante, oferecer carinho, reconhecer esforço, pedir desculpas, dividir vulnerabilidades. Relações se mantêm por pequenas confirmações repetidas: “eu vejo você”, “você importa”, “sua vida interna tem lugar comigo”.
Quando os dois estão sozinhos, mas nenhum fala
Às vezes, os dois se sentem sozinhos. Um acha que o outro não se importa. O outro acha que não consegue agradar. Um sente falta de carinho. O outro sente falta de reconhecimento. Um queria ser procurado. O outro queria ser recebido com menos crítica. Mas ninguém fala de forma clara. Cada um espera que o outro perceba.
Esse tipo de silêncio cria interpretações. A pessoa começa a preencher lacunas com histórias: “ele não me ama”, “ela não me deseja”, “ele está melhor sem mim”, “ela só me procura para reclamar”. Algumas dessas histórias podem ter uma parte de verdade, mas outras são leituras feitas a partir de medo e mágoa.
O casal pode estar preso em um desencontro triste: os dois querendo conexão, mas ambos se protegendo da rejeição. Um não procura porque tem medo de ser ignorado. O outro não procura porque tem medo de ser criticado. O resultado parece indiferença, mas pode haver muita dor escondida.
Uma pergunta importante é: “o que eu parei de pedir porque doeu pedir?”. Outra é: “o que meu parceiro talvez tenha parado de mostrar porque não se sentiu recebido?”. Essas perguntas podem abrir uma conversa mais honesta.
Afastamento depois de traição ou quebra de confiança
Depois de uma traição, mentira ou quebra importante de confiança, o distanciamento pode ser uma forma de proteção. Quem foi ferido pode não conseguir se abrir como antes. Pode evitar toque, conversa, planos e vulnerabilidade. Não é frieza; é medo. A pessoa pensa: “se eu me aproximar, posso ser machucada de novo”.
Quem quebrou a confiança pode sentir que está sendo punido ou que nada do que faz basta. Pode ficar impaciente para a relação “voltar ao normal”. Mas confiança não volta porque alguém quer. Ela precisa ser reconstruída com consistência, responsabilidade, transparência e escuta da dor.
Quando o casal tenta pular essa etapa, a distância cresce. A pessoa ferida sente que sua dor foi minimizada. A outra sente que está presa para sempre ao erro. A terapia pode ajudar a organizar esse processo: falar do que aconteceu, medir se há arrependimento real, construir acordos e entender se há caminho de reconstrução.
Nem todo casal continua depois de uma quebra de confiança. Mas, quando decide tentar, precisa entender que a proximidade não volta apenas por convivência. Volta por segurança reconstruída.
Depressão, ansiedade e afastamento no casal
O sofrimento emocional individual pode aumentar muito o distanciamento. Uma pessoa deprimida pode se fechar, perder desejo, evitar conversa, sentir culpa, ficar irritada e ter pouca energia para a relação. O parceiro pode interpretar isso como desamor. Mas, muitas vezes, é sintoma de sofrimento.
Uma pessoa ansiosa pode buscar garantias constantes, interpretar silêncios como rejeição, querer conversar imediatamente ou se assustar com qualquer mudança de tom. O parceiro pode se sentir pressionado e se afastar. A ansiedade tenta aproximar, mas do jeito errado pode gerar distância.
Trauma também pode afetar intimidade. Toques, tons de voz, conflitos ou sensação de dependência podem disparar defesas. A pessoa pode se fechar não porque não ama, mas porque o corpo aprendeu a se proteger.
Nesses casos, pode ser importante combinar cuidado individual e cuidado do casal. Um psicólogo 24 horas online pode ajudar em momentos de crise individual, ansiedade intensa, tristeza profunda ou medo de perder o controle. Já a terapia de casal 24 horas online pode ajudar os dois a entenderem como esse sofrimento entra no vínculo sem transformar uma pessoa em culpada por tudo.
Como começar a se reaproximar?
Reaproximação não começa necessariamente com grandes declarações. Muitas vezes, começa com pequenos gestos consistentes. Perguntar como foi o dia e realmente escutar. Fazer um elogio específico. Dar um abraço sem pressa. Sentar junto sem celular. Mandar uma mensagem carinhosa. Agradecer algo que virou invisível. Pedir desculpa por uma frieza. Dizer “senti sua falta”.
No começo, esses gestos podem parecer estranhos. Quando há distância, a proximidade pode dar vergonha. A pessoa pensa: “vai parecer forçado”, “ele vai estranhar”, “ela não vai responder”. Mas alguém precisa abrir uma fresta. Não para resolver tudo em um dia, mas para mostrar que ainda existe possibilidade de contato.
É importante que os gestos sejam livres de cobrança imediata. Se a pessoa oferece carinho e, no mesmo instante, exige resposta perfeita, o outro pode se sentir pressionado. A reaproximação precisa de paciência. Depois de muito tempo de distância, o corpo emocional do casal não volta a confiar de uma vez.
Também é útil falar de forma simples: “percebo que estamos distantes e isso me dói. Eu não quero te acusar. Eu queria entender se você também sente isso e se podemos tentar nos aproximar aos poucos”. Essa conversa pode ser difícil, mas é mais promissora do que acusações como “você virou um estranho”.
Pequenos rituais de conexão
Rituais de conexão são momentos repetidos que ajudam o casal a se lembrar do vínculo. Não precisam ser grandiosos. Podem ser dez minutos de conversa no fim do dia, um café juntos pela manhã, uma caminhada semanal, um abraço ao chegar, uma pergunta antes de dormir, uma refeição sem tela, uma mensagem no meio do dia ou um encontro simples a cada semana.
O valor desses rituais está na repetição. Relações não se alimentam apenas de momentos especiais. Alimentam-se de sinais cotidianos de presença. Um casal pode passar anos esperando uma viagem perfeita, mas ignorar dezenas de pequenas chances de conexão durante a semana.
Para funcionar, o ritual precisa ser realista. Se o casal está exausto, combinar duas horas de conversa toda noite pode falhar. Melhor começar pequeno. Quinze minutos sem celular podem ser mais sustentáveis. Um gesto diário pode ter mais força do que uma promessa enorme que não se cumpre.
Também é importante proteger esses rituais de discussões práticas. Se todo momento de conexão vira conversa sobre contas, problemas dos filhos ou reclamações, o casal passa a evitar. É claro que problemas precisam ser conversados, mas a relação também precisa de espaços que não sejam apenas administração e conflito.
O medo de tentar e ser rejeitado
Muitas pessoas permanecem distantes porque têm medo de tentar se aproximar e serem rejeitadas. Esse medo é compreensível. Depois de meses ou anos de frieza, um gesto de carinho pode parecer arriscado. Se o outro não responde, a dor fica maior.
Por isso, algumas pessoas preferem manter a distância conhecida. Ela dói, mas parece previsível. Tentar aproximar abre a possibilidade de esperança, e esperança também assusta quando já houve muita decepção.
Uma forma de reduzir esse medo é conversar sobre o processo. Em vez de testar o outro em silêncio, diga: “quero tentar me aproximar, mas tenho medo de parecer estranho ou de você não querer. Podemos ir devagar?”. Essa fala tira o casal do jogo de adivinhação.
Também é importante lembrar que a primeira tentativa pode não ser perfeita. O parceiro pode estranhar, responder pouco ou não saber o que fazer. Isso não significa necessariamente rejeição. Pode significar que a relação precisa reaprender intimidade.
Quando procurar terapia?
Procure terapia quando a distância já dura muito tempo, quando o casal não consegue conversar sobre isso sem brigar, quando um se sente invisível, quando a vida sexual virou fonte de dor, quando há mágoas antigas não resolvidas, quando a rotina engoliu o vínculo ou quando os dois parecem não saber como voltar.
A terapia de casal pode ajudar a transformar o afastamento em tema conversável. O terapeuta pode ajudar os parceiros a entenderem o ciclo: quem procura, quem se afasta, o que cada um sente, quais medos aparecem, quais diferenças viraram defeitos e quais pequenas mudanças podem reconstruir segurança.
Também pode ajudar a distinguir distanciamento de violência. Se há medo, ameaça, controle, agressão ou coerção, a prioridade é segurança, e a terapia de casal pode não ser indicada. Ninguém deve ser pressionado a se aproximar emocionalmente de alguém que oferece risco.
Quando não há violência e existe disposição mínima de olhar para a relação, a terapia pode abrir espaço para uma conversa que o casal não consegue ter sozinho. Às vezes, a presença de um profissional ajuda os dois a pararem de se defender e começarem a se mostrar.
Distância também pode trazer uma decisão
Nem todo distanciamento termina em reaproximação. Às vezes, ao olhar com honestidade, o casal percebe que o vínculo amoroso se perdeu, que não há disposição de reconstruir ou que a relação se tornou um lugar de sofrimento sem caminho comum. Nesses casos, a terapia pode ajudar a pensar em separação com mais clareza e menos destruição.
Isso é especialmente importante quando há filhos, patrimônio, dependência financeira ou muitas mágoas. Separar no impulso de uma briga pode gerar decisões ruins. Continuar por medo também pode adoecer. O cuidado psicológico ajuda o casal a diferenciar crise, fase, afastamento reparável e encerramento necessário.
Reaproximar ou separar são decisões sérias. Ambas merecem calma. A pergunta não deve ser apenas “ainda existe amor?”, mas também: “existe respeito?”, “existe segurança?”, “existe vontade real de cuidar?”, “a relação ainda permite crescimento?”, “os dois estão dispostos a fazer algo diferente?”.
Às vezes, a terapia ajuda o casal a voltar. Às vezes, ajuda a se despedir. Em ambos os casos, pode reduzir sofrimento e aumentar responsabilidade.
A proximidade pode ser reaprendida
Quando o casal vive distante há muito tempo, pode parecer impossível recuperar intimidade. Mas proximidade pode ser reaprendida, desde que haja segurança, respeito e alguma disposição. O caminho geralmente é gradual: menos acusação, mais vulnerabilidade; menos defesa, mais escuta; menos rotina automática, mais presença; menos cobrança de resposta perfeita, mais pequenos gestos consistentes.
Não se trata de voltar exatamente ao início. O casal não é mais o mesmo. A vida mudou. Os corpos mudaram. As responsabilidades mudaram. As feridas também fazem parte da história. A reaproximação madura não tenta fingir que nada aconteceu; ela cria uma nova forma de estar junto depois do que aconteceu.
Talvez o primeiro passo seja pequeno: uma conversa sem celular, um pedido de desculpa, um reconhecimento, um abraço, uma pergunta sincera, uma sessão de terapia, um acordo de pausa, uma noite sem discutir problemas práticos. Pequenos passos não resolvem tudo, mas podem interromper a sensação de que a distância é destino.
Viver junto e se sentir longe é doloroso. Mas essa dor pode ser um chamado. Um chamado para olhar para o vínculo antes que ele fique apenas funcional. Um chamado para perguntar: “onde nós nos perdemos?” e “ainda queremos nos encontrar?”.
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