
About the author : Flaviano da Silva
Psicólogo Flaviano Jaime da Silva CRP 56349 Formaçôes: Psicólogo Formado pela Universidade Veiga de Almeida RJ Pós Graduado em Terapia Cognitivo Comportamental Contato email: flavianospsi@gmail.com Telefone 021 96626 7379
É importante entender que terapia não é apenas conversar sobre problemas. Em momentos de crise, ela pode ajudar a pessoa a reconhecer sinais do corpo, separar fatos de pensamentos, entender gatilhos, diminuir impulsos, pedir ajuda, montar um plano de segurança, atravessar a onda emocional e decidir quais passos precisam ser tomados agora, hoje, nesta semana e no tratamento contínuo. A crise pode ser o ponto de partida para um cuidado mais profundo.
O que é uma crise emocional?
Uma crise emocional acontece quando o sofrimento fica maior do que os recursos que a pessoa sente ter naquele momento. Isso não significa que ela seja fraca. Significa que o corpo e a mente entraram em um estado de sobrecarga. A pessoa pode estar diante de uma perda, ameaça, conflito, trauma, medo, excesso de responsabilidades, solidão, rejeição, esgotamento, dor física, uso de substâncias ou acúmulo de situações difíceis.
Durante a crise, a experiência interna pode mudar rapidamente. Algumas pessoas choram sem parar. Outras ficam paralisadas. Outras sentem raiva intensa. Outras entram em pânico. Há quem fique com sensação de vazio, como se estivesse desligado de tudo. Há quem comece a pensar em se machucar. Há quem sinta uma necessidade urgente de ligar para alguém, terminar uma relação, fugir, beber, usar substâncias, mandar muitas mensagens ou tomar uma decisão definitiva.
A crise costuma reduzir a visão de futuro. A pessoa passa a enxergar apenas o problema atual e esquece que emoções mudam. O pensamento fica estreito. Frases como “sempre vai ser assim”, “não tem saída”, “ninguém se importa”, “eu estraguei tudo” ou “preciso resolver agora” parecem verdadeiras. A terapia ajuda a criar espaço entre a emoção e a ação. Esse espaço pode ser pequeno, mas pode ser suficiente para proteger a pessoa.
Uma crise emocional não deve ser ignorada. Mesmo quando passa, ela deixa pistas. Mostra gatilhos, vulnerabilidades, padrões de pensamento, relações difíceis, falta de apoio, uso de estratégias perigosas ou sinais de um sofrimento maior. O cuidado psicológico ajuda a transformar a crise em informação, não em vergonha.
O primeiro papel da terapia: acolher sem julgar
Em crise, muitas pessoas têm medo de serem julgadas. Temem ouvir que estão exagerando, que são dramáticas, que deveriam ter mais fé, mais força ou mais gratidão. Esse medo faz com que escondam o sofrimento até o limite. A terapia oferece um espaço diferente: um lugar onde a pessoa pode dizer “não estou bem” sem precisar se defender.
Acolher não significa concordar com tudo que a pessoa pensa no auge da crise. Se alguém diz “minha vida acabou”, o psicólogo não precisa confirmar essa ideia. Mas pode reconhecer: “você está sentindo como se não houvesse saída agora”. Essa diferença é importante. A emoção é validada, mas a conclusão desesperada não é tratada como verdade absoluta.
Esse tipo de escuta reduz a vergonha. Quando a pessoa se sente ouvida, o corpo pode sair um pouco do modo de ameaça. Ela para de gastar energia tentando provar que sofre. Começa a conseguir observar o que sente. Em muitas crises, ser acolhido já é o primeiro passo para recuperar algum controle.
Também é comum que a pessoa chegue à terapia se culpando. “Eu deveria saber lidar”, “sou fraco”, “ninguém normal fica assim”, “estou dando trabalho”. O psicólogo ajuda a trocar culpa por compreensão. A pergunta deixa de ser “qual é o meu defeito?” e passa a ser “o que aconteceu comigo, o que dispara isso e do que eu preciso agora?”.
Avaliar risco: quando a crise precisa de proteção imediata
Um ponto essencial da terapia em crise é avaliar risco. Isso inclui perguntar, com cuidado e clareza, se há pensamentos de morte, vontade de se machucar, planos suicidas, uso de álcool ou substâncias, agressividade, perda de controle, violência, intoxicação, ferimentos, sintomas físicos graves ou incapacidade de ficar seguro sozinho.
Algumas pessoas ficam assustadas quando o psicólogo pergunta sobre suicídio ou automutilação. Mas essas perguntas não colocam ideias na cabeça. Elas ajudam a proteger. Quando alguém está em risco, o silêncio é perigoso. Falar diretamente pode trazer alívio e permitir que um plano seja construído.
Se houver risco imediato de vida, tentativa de suicídio, ferimento, intoxicação, surto psicótico, violência ou incapacidade de se manter seguro, o atendimento psicológico online ou presencial precisa acionar uma rede de proteção. Isso pode envolver familiares, serviço de emergência, pronto atendimento, avaliação médica ou psiquiátrica. Nesses casos, o objetivo principal não é discutir toda a história da pessoa. É manter a pessoa viva e segura.
Quando o risco não é imediato, mas existe sofrimento intenso, o psicólogo pode ajudar a montar um plano de segurança: quem chamar, o que afastar do ambiente, onde ficar, quais sinais observar, que ações alternativas usar, quais serviços procurar e como atravessar as próximas horas. Um plano feito com calma pode salvar a pessoa quando a emoção voltar a subir.
Entender o ciclo da crise
Depois do acolhimento inicial e da avaliação de segurança, a terapia ajuda a entender o ciclo da crise. Quase sempre há uma sequência. Primeiro aparece um gatilho. Pode ser uma mensagem, uma crítica, uma lembrança, uma sensação física, uma discussão, uma cobrança, uma notícia, uma noite mal dormida, uma dor no corpo ou uma sensação de abandono.
Depois vêm pensamentos automáticos. Eles surgem rápido: “vou morrer”, “ninguém gosta de mim”, “vou perder o controle”, “não vou suportar”, “fui rejeitado”, “sou um peso”, “isso nunca vai melhorar”. Esses pensamentos aumentam a emoção. A emoção muda o corpo. O corpo fica em alerta. A pessoa sente impulso de agir.
O comportamento vem em seguida. A pessoa pode fugir, evitar, checar, pedir garantia, beber, usar substâncias, gritar, se isolar, mandar mensagens repetidas, se machucar, buscar sintomas na internet ou tomar decisões impulsivas. Alguns desses comportamentos aliviam por alguns minutos. Mas, depois, podem piorar a situação.
A terapia ajuda a mapear essa sequência: gatilho, pensamento, emoção, corpo, impulso, ação e consequência. Quando a pessoa entende o ciclo, deixa de ver a crise como um monstro sem forma. Ela começa a perceber pontos de intervenção. Talvez não consiga impedir o gatilho, mas pode aprender a responder de outro jeito ao pensamento. Talvez não consiga impedir a emoção de subir, mas pode escolher uma ação menos perigosa enquanto ela passa.
Separar fatos de pensamentos
Em crise, pensamentos parecem fatos. Se a mente diz “ninguém se importa”, isso parece verdade. Se diz “vou morrer”, parece certeza. Se diz “eu estraguei tudo”, parece sentença. A terapia ajuda a pessoa a perceber que pensamento é pensamento, mesmo quando vem acompanhado de emoção forte.
Separar fatos de pensamentos não é negar a dor. A pessoa pode estar sofrendo de verdade. Pode ter sido rejeitada, criticada, ferida ou ameaçada. Mas a mente em crise frequentemente adiciona interpretações extremas. Um atraso na resposta vira abandono. Uma crítica vira prova de inutilidade. Uma palpitação vira morte iminente. Uma briga vira fim definitivo de tudo.
O psicólogo pode ajudar com perguntas simples: “o que aconteceu concretamente?”, “que pensamento apareceu?”, “que outra explicação existe?”, “que evidências apoiam essa ideia?”, “que evidências faltam?”, “o que você diria a alguém que estivesse sentindo isso?”, “essa decisão precisa ser tomada agora?”.
Esse processo não precisa ser frio ou racional demais. Em crise, a pessoa não precisa de debate intelectual. Precisa de perguntas que diminuam a fusão com pensamentos desesperados. O objetivo é criar uma pequena fresta: “talvez o que minha mente está dizendo agora não seja a história inteira”.
Ajudar o corpo a sair do modo de ameaça
Crise emocional não acontece só na mente. O corpo participa. Coração acelerado, tremores, falta de ar, suor, náusea, tensão, calor, formigamento, dor no peito, nó na garganta, peso nos braços, inquietação ou sensação de irrealidade podem aparecer. Quando a pessoa interpreta essas sensações como perigo, o medo aumenta.
A terapia ajuda a pessoa a entender o corpo. Em uma crise de ansiedade ou pânico, por exemplo, o corpo ativa o sistema de defesa. Isso pode ser muito desconfortável, mas nem sempre é uma emergência física. Ao mesmo tempo, sintomas novos, intensos ou diferentes precisam de avaliação médica. O cuidado psicológico não substitui cuidado médico quando há sinais de risco físico.
Em momentos de emoção intensa, algumas estratégias corporais podem ajudar: apoiar os pés no chão, soltar o ar mais devagar, relaxar ombros e mandíbula, beber água, sair de um ambiente muito estimulante, perceber objetos ao redor, tomar banho, caminhar em lugar seguro ou usar uma técnica de aterramento. O objetivo não é controlar o corpo com rigidez, mas sinalizar segurança.
Também é importante aprender que a ansiedade e a emoção sobem e descem. No pico, parecem eternas. Mas o corpo não sustenta o mesmo nível para sempre. A terapia ajuda a pessoa a atravessar a onda sem obedecer ao impulso mais perigoso.
Construir ações alternativas
Em crise, não basta dizer “não faça isso”. Se a pessoa quer se machucar, beber, gritar, fugir ou mandar mensagens impulsivas, esse comportamento provavelmente tem uma função. Ele tenta aliviar, descarregar, pedir ajuda, controlar, anestesiar ou interromper dor. Para mudar, a pessoa precisa de alternativas que cumpram parte dessa função sem destruir sua vida.
Se a função é pedir ajuda, uma ação alternativa pode ser enviar uma mensagem direta: “estou em crise, pode ficar comigo?”. Se a função é descarregar raiva, pode ser sair da discussão, caminhar, escrever sem enviar, tomar banho ou apertar uma toalha. Se a função é aliviar ansiedade, pode ser ligar para alguém, praticar aterramento, reduzir estímulos ou usar uma orientação combinada em terapia. Se a função é não se machucar, pode ser afastar objetos de risco e ir para perto de outra pessoa.
Essas alternativas precisam ser escolhidas antes do pico. Na hora da crise, a mente não costuma inventar soluções boas. Por isso, a terapia ajuda a montar uma lista personalizada. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Alguém pode se acalmar com música; outra pessoa pode ficar mais triste. Alguém pode caminhar; outra pessoa, com dor crônica, pode precisar de outra estratégia. O plano precisa respeitar a realidade da pessoa.
Com repetição, ações alternativas ficam mais acessíveis. No começo, podem parecer fracas diante da intensidade da emoção. Mas cada vez que a pessoa atravessa uma crise sem se ferir, sem destruir uma relação ou sem usar uma substância, o cérebro aprende que existe outro caminho.
Psicoeducação: entender o que está acontecendo
Uma parte importante da terapia é a psicoeducação. Essa palavra significa aprender sobre o funcionamento do problema de forma clara e útil. Não é uma aula fria. É uma explicação ligada à vida da pessoa: por que o pânico aparece, por que a preocupação não desliga, por que a evitação mantém o medo, por que a automutilação alivia por pouco tempo, por que o álcool piora a ansiedade, por que o sono muda o humor, por que pensamentos depressivos parecem tão verdadeiros.
Quando a pessoa entende o que acontece, a crise deixa de parecer loucura. Ela pode dizer: “meu corpo está em alerta”, “minha mente está catastrofizando”, “estou entrando no ciclo de evitação”, “isso é uma vontade de ritualizar”, “esse é meu impulso de fuga”, “essa é minha depressão falando”. Nomear não resolve tudo, mas reduz confusão.
A psicoeducação também ajuda familiares. Muitas crises pioram porque quem está ao redor não entende. Dizem “para com isso”, “é drama”, “é só relaxar”, “você está exagerando”. Quando a família aprende sobre o ciclo, pode apoiar melhor: acolher sem alimentar comportamentos de risco, incentivar ajuda, reduzir críticas e agir com segurança.
Entender não substitui praticar. Mas dá sentido à prática. A pessoa fica mais disposta a usar estratégias quando sabe por que elas existem e como ajudam.
Reduzir evitação sem forçar demais
Muitas crises geram evitação. Depois de uma crise de pânico, a pessoa evita sair. Depois de uma crise de ansiedade social, evita reuniões. Depois de uma lembrança traumática, evita lugares e conversas. Depois de uma briga, evita falar sobre sentimentos. Depois de uma crise de depressão, evita tarefas. A evitação dá alívio imediato, mas pode aumentar o medo no longo prazo.
A terapia ajuda a pessoa a se aproximar novamente da vida, mas de forma gradual. Forçar demais pode assustar e gerar desistência. Evitar tudo mantém a prisão. O caminho costuma ser construir passos possíveis. Se a pessoa tem medo de sair, começa perto. Se teme falar, começa com uma frase. Se evita mensagens, responde uma. Se evita dormir por medo de pânico noturno, trabalha a relação com o sono aos poucos.
Esse processo ensina que a emoção pode estar presente sem impedir a ação. A pessoa não precisa esperar estar totalmente calma para viver. Pode sentir ansiedade e ainda dar um passo. Pode sentir tristeza e ainda tomar banho. Pode sentir vergonha e ainda pedir ajuda. Pode sentir medo e ainda permanecer em segurança.
A terapia também ajuda a diferenciar enfrentamento de violência contra si. Enfrentar não é se jogar sem preparo em tudo que assusta. É se aproximar de forma planejada, segura e repetida, para que o cérebro aprenda algo novo.
Trabalhar a crise no relacionamento
Muitas crises emocionais acontecem dentro de relações. Uma briga de casal, uma traição, ciúme, medo de abandono, silêncio, rejeição, cobranças ou conflitos repetidos podem disparar emoções muito intensas. A pessoa pode sentir que precisa resolver tudo na hora, mandar várias mensagens, terminar no impulso, ameaçar ir embora, se fechar ou atacar.
A terapia individual ajuda a pessoa a entender seus gatilhos e impulsos. Mas, em alguns casos, o sofrimento está tão ligado ao padrão do casal que pode ser importante buscar ajuda conjunta. Quando as conversas viram ataques, quando os dois se sentem incompreendidos, quando há ciclos de cobrança e defesa, ou quando a crise aparece sempre nos mesmos temas, uma terapia de casal 24 horas online pode ajudar a criar um espaço mais seguro para conversar.
Isso não significa que todo casal deva permanecer junto. Terapia de casal não existe para obrigar reconciliação. Ela pode ajudar o casal a entender padrões, reduzir agressividade, conversar com mais clareza, decidir caminhos e proteger a saúde emocional dos envolvidos. Em relações com violência, ameaça ou risco físico, a prioridade deve ser segurança, não mediação da relação.
Em crises relacionais, uma regra importante é evitar decisões definitivas no pico da emoção. A terapia ajuda a pessoa a esperar a onda baixar, comunicar necessidades com menos ataque e reconhecer quando é necessário pedir ajuda externa.
Organizar o depois da crise
Quando a crise passa, muita gente quer esquecer. “Já passou, não quero falar disso.” Esse impulso é compreensível. Mas, se a crise se repete, é importante olhar para ela depois, com calma. O objetivo não é reviver sofrimento à toa, mas aprender.
Na terapia, o depois da crise pode ser analisado com perguntas: o que aconteceu antes? Quais sinais apareceram? O que aumentou a emoção? O que ajudou um pouco? O que piorou? Houve risco? Quem foi acionado? O que poderia ser feito diferente na próxima vez? Que habilidade precisa ser treinada? Que conversa precisa acontecer? Que cuidado contínuo é necessário?
Essa revisão precisa ser feita sem humilhação. Se a pessoa se machucou, bebeu, gritou, fugiu ou tomou uma decisão ruim, a vergonha pode ser enorme. Mas a vergonha sozinha não ensina. A análise cuidadosa ensina. Ela transforma crise em mapa.
Também pode ser necessário reparar consequências. Pedir desculpas, procurar atendimento médico, ajustar rotina, avisar alguém, retirar substâncias de casa, reorganizar sono, marcar consulta psiquiátrica, combinar limites ou criar um novo plano. A terapia ajuda a pessoa a não ficar apenas na culpa, mas partir para ações concretas.
Quando o atendimento online pode ajudar
O atendimento online pode ser muito útil em momentos de crise emocional porque reduz barreiras. A pessoa não precisa se deslocar, pode buscar apoio de casa, pode falar durante uma noite difícil e pode receber orientação quando está assustada ou sem conseguir sair. Para quem tem agorafobia, ansiedade intensa, dor crônica, trauma ou vergonha, esse acesso pode fazer grande diferença.
Um psicólogo 24 horas online pode ajudar a acolher uma crise, avaliar risco, organizar pensamentos, orientar ações imediatas e indicar quando é necessário buscar atendimento presencial. Também pode ajudar a pessoa a iniciar um acompanhamento mais contínuo depois da urgência.
Mas é importante repetir: se há risco imediato de vida, intoxicação, ferimento, tentativa de suicídio, violência, psicose, desmaio, dor física grave ou incapacidade de ficar seguro, o atendimento online não substitui emergência presencial. Nesses casos, acione alguém próximo, procure pronto atendimento ou serviço de emergência.
O online é uma ferramenta poderosa quando usado de forma correta. Pode ser porta de entrada, apoio rápido e continuidade de cuidado. Mas segurança física sempre vem primeiro.
Terapia não é só para crise
Muita gente procura terapia apenas quando está no limite. Isso é compreensível, mas o cuidado contínuo pode reduzir a frequência e a intensidade das crises. Em sessões regulares, a pessoa aprende a reconhecer sinais iniciais, cuidar do sono, reduzir evitação, melhorar comunicação, lidar com pensamentos, criar rotina, tratar traumas, enfrentar ansiedade, trabalhar depressão e construir rede de apoio.
Crise é como incêndio emocional. Atendimento urgente ajuda a apagar as chamas. Mas terapia contínua ajuda a entender por que o fogo começa, onde há material inflamável e como prevenir novos incêndios. As duas coisas podem ser necessárias em momentos diferentes.
O acompanhamento também fortalece habilidades. Em uma crise, é difícil aprender tudo do zero. Por isso, a terapia regular treina antes: como respirar sem virar controle rígido, como nomear emoção, como pedir ajuda, como fazer exposição gradual, como questionar pensamentos, como adiar impulsos, como montar plano de segurança e como lidar com recaídas.
Quanto mais a pessoa pratica fora da crise, mais chance tem de usar algo dentro dela. O objetivo não é nunca mais sofrer. É sofrer com mais recursos, menos risco e mais apoio.
O que familiares podem fazer durante uma crise?
Familiares e amigos podem ajudar muito, mas muitas vezes não sabem como. O primeiro passo é manter uma postura calma. Gritos, ameaças, ironias e acusações aumentam a crise. Frases como “você está exagerando” ou “para com isso” raramente ajudam.
É melhor usar frases simples: “estou aqui”, “vamos passar por esse momento”, “você está em segurança agora”, “não vamos decidir tudo no pico”, “quer que eu fique com você?”, “precisamos procurar ajuda?”. Se houver risco de suicídio ou automutilação, pergunte diretamente e não deixe a pessoa sozinha.
Também é importante não alimentar comportamentos que mantêm o ciclo. Responder a pedidos infinitos de garantia, participar de rituais, comprar bebida para acalmar, encobrir riscos ou aceitar agressões pode piorar no longo prazo. Apoiar é acolher a pessoa, não obedecer ao medo ou ao impulso perigoso.
Família também pode participar do plano de segurança. Saber quem chamar, quais sinais observar, onde procurar atendimento e como agir reduz improviso. Em crise, improvisar é mais difícil. Plano traz direção.
O que esperar depois de buscar ajuda?
Depois de procurar ajuda em uma crise, a pessoa pode sentir alívio, vergonha, cansaço ou medo de ter outra. Tudo isso é comum. O importante é não transformar o pedido de ajuda em motivo de culpa. Pedir apoio foi uma forma de proteção.
O próximo passo pode ser marcar acompanhamento regular, procurar avaliação psiquiátrica, envolver uma pessoa de confiança, ajustar rotina, retirar meios de risco, cuidar do sono, reduzir álcool ou substâncias, iniciar exercícios de enfrentamento ou planejar conversas difíceis. O caminho depende da situação.
Também é possível que a pessoa descubra que a crise estava ligada a algo mais amplo: depressão, ansiedade generalizada, pânico, trauma, TOC, transtorno bipolar, dor crônica, uso de substâncias ou conflitos familiares. Isso não deve ser visto como rótulo para assustar, mas como orientação para cuidado adequado.
Uma crise pode ser um aviso. Ela mostra que a pessoa precisa de mais suporte, mais habilidades ou mudanças no modo como enfrenta sofrimento. Ouvir esse aviso pode evitar crises maiores no futuro.
A terapia ajuda a recuperar escolha
No fundo, uma das maiores ajudas da terapia em momentos de crise é devolver escolha. A crise diz: “faça agora”, “fuja”, “ataque”, “beba”, “se machuque”, “termine tudo”, “desista”. A terapia ajuda a pessoa a responder: “vou esperar”, “vou pedir ajuda”, “vou me proteger”, “vou atravessar esta onda”, “vou decidir depois”, “vou escolher algo que não destrua minha vida”.
Essa escolha pode parecer pequena no começo. Não enviar uma mensagem. Não pegar uma bebida. Não se ferir. Não dirigir em crise. Não ficar sozinho. Ligar para alguém. Marcar consulta. Tomar banho. Respirar. Esperar dez minutos. Mas pequenas escolhas em momentos críticos podem mudar o rumo de uma noite, de uma relação e até de uma vida.
Terapia não promete que a pessoa nunca mais terá crise. Promete um espaço para aprender com elas, reduzir riscos, desenvolver recursos e construir uma relação mais segura com as próprias emoções. A crise pode continuar sendo difícil, mas não precisa ser enfrentada no escuro.
Quando a emoção passa do limite, pedir ajuda é um ato de cuidado. A terapia ajuda a transformar desespero em linguagem, impulso em pausa, confusão em plano e solidão em presença. Às vezes, isso é exatamente o que a pessoa precisa para atravessar mais um dia e começar a reconstruir o caminho.
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